Hipermetropia Crônica.
Doce é o sabor da ignorância. Felizes são aqueles que não conhecem a verdadeira face das pessoas. Queria eu ser eternamente ignorante, desconhecer seu verdadeiro eu e, quem sabe assim, ser feliz ao seu lado. Ou, pelo menos, olhar nos seus olhos sem sentir falta da beleza que antes eu via neles. Os tolos dizem que é preciso conhecer uma pessoa para poder admirá-la, já os sábios sabem que quanto mais se conhece uma pessoa menos se admira. Como se o conhecimento destruísse a bela venda que é a ignorância, os olhos se abrem e nada mais nos surpreende. Passamos a esperar qualquer coisa daquela pessoa. Os belos olhos se tornam mentirosos. O sorriso encantador passa a ser dissimulado. Somos capazes de ver a teia que sai de seus lábios em forma de palavras. E foi nessa teia que eu me vi presa, completamente envolta e sem a menor vontade de conquistar a liberdade. Com certeza não. Como eu já disse, a ignorância é doce, viciante e sempre temos certeza de estar olhando para uma face verdadeira e sincera. Antes, eu considerava a ignorância uma forma de miopia, um tipo raro, que afeta todos os sentidos e não apenas a visão. Uma miopia sinestésica, mas não, a ignorância não se assemelha em nada a miopia. De longe você ainda me parece belo, mesmo após a venda ter caído. Desconhecer é não enxergar o que está embaixo de nossos olhos, perto o suficiente para tocar. A enfermidade que toma conta de nossos sentidos é algum tipo crônico de hipermetropia. O que é belo de longe pode perder a beleza com a proximidade. O que é certeza na ignorância se torna devaneios no conhecimento. As verdades mudam conforme os nossos olhos vão se abrindo e nem sempre se tornam agradáveis. Palavras que antes eram fáceis de serem trocadas aos poucos se tornam quase inexistentes. Os sorrisos permanentes minguam até ficarem escassos. As gentilezas, bom, elas há muito foram esquecidas. Felizes são aqueles que olham para você e não veem a verdade escondida atrás do verde de seus olhos.
B.
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